Escrito por Rosana kali às 21h32
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Enquanto houver cigarros
Não saio desta mesa
Posso suportar toda a estupidez
Desta conversa digna de ratos
Destes assuntos dignos de macacos
Destes diálogos dignos de baratas
Falar sobre bucetas e caralhos
Tomar cerveja gelada
Esperando um orgasmo quente
Nesta conversa digníssima de humanos
Os espíritos estão bem miúdos
E meus olhos são míopes
Tenho que chegar muito próxima e ver com o tato
Mas tenho nojo
Tampo o nariz para não vomitar
Cheiro de urina na calçada e nos corpos
Vai chover
As nuvens pesam sobre nossas cabeças
Mas enquanto houver cigarros
Não desisto da noite
Princesas tediosas desfilam suas decadências
O céu vazio de estrelas
Solto um bocado de fumaça em resposta a esta atmosfera de névoa
Alguém resolve perguntar meu signo
Digo que sou de câncer
Dizem que ando para trás
Digo que se continuo assim
Vou chegar tão atrás mesmo
Que descobrirei o segredo primordial
Antes do pecado original
E talvez tenha outras respostas além da fumaça
Minha decência rasga como papel
Ao menos ainda tenho cigarros
Posso ficar alguns minutos esquecida de alma
Agüento até três horas sem alma
Depois fico mais seis
Até que me acostumo
E fico nesta ausência anímica por semanas
Por meses
Porém é inevitável que na sombra de um extenso dia
Eu caia despencando comigo todas as flores do abismo
Logo volto para os assuntos triviais
Pensando nos caminhos de Orfeu no inferno
E bebendo num copo coletivo cheio de baba
Tento não acabar com o assunto
Pergunto o signo dela
E ela me diz
Sou ariana
E isto me trás muitas coisas em mente
Fico imaginando os exércitos de Lúcifer
Enquanto ela descreve todas as características do signo de Áries.
Escrito por Rosana kali às 21h02
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Beijei todas as bocas,
Vomitei todos os beijos,
Sintam raiva, ódio e pena de mim!
Estive em tantos prédios,
Perdida por entre esplêndidas arquiteturas,
Tantos andares,
Tudo tão alto e imenso,
Arranha-céus que arranhavam infernos,
Edifícios cheios de instalações artísticas,
Arte contemporânea
Pairando sobre o nada!
Tropecei em objetos inidentificáveis,
Desci rolando pela escadaria,
Sangrei cheia de humilhação e vergonha,
Corri escorrendo sangue,
Tampei meu rosto com a mão e não queria encarar teus olhos
Para não sentir nos teus olhos a minha dor,
Para não chorar nos teus olhos a minha lágrima,
Quase quis guardar comigo a tua boca,
Esqueci que tudo que é doce me causa ânsia,
Esqueci que não presto,
Que sou um trapo,
Que sequer sirvo para limpar pratos!
Pois eu esmago todas as flores com meus pés,
Mas o teu cheiro,
Para mim,
É melhor do que o cheiro de qualquer flor,
Tua saliva tem mais embriaguez,
Do que qualquer vinho!
Às vezes me questiono,
Se um dia você visse,
Assim como quem avista de longe
E força os olhos para ver melhor,
Meu corpo caído,
Estirado em pedras de textura áspera
E inteiro picado por insetos e répteis venenosos,
Você viria chupar o veneno das minhas feridas,
Mesmo sabendo que seria tarde,
Mesmo sabendo que eu estaria quase morta ou mesmo morta
Você chuparia o sangue contaminado e morno do meu corpo?
Eu tenho mil caminhos e mil passos em cada caminho,
Eu tenho mil formas e mil cores distintas,
Eu tenho mil mentiras para contar
E mil verdades para esconder,
Mas esta noite eu só queria ser neutra!
Esta noite eu gostaria de ser tua
Sem nenhuma culpa,
Sem nenhuma obrigação,
Sem nenhum acordo,
Sem nenhuma condição possível,
Sem nenhuma palavra,
Sem nenhum espaço para dizer sim ou não!
No entanto você despencou quando eu disse Amor
E eu te segurei,
Mas segurava apenas a tua sombra,
Eu agarrada, abraçada apenas a tua sombra,
Tive que lamber a parede,
Tive que lamber o asfalto,
Tentando alcançar teus lábios!
Eu tentei dar meu coração a ti
E você dispensou
Como quem dispensa um prato de comida numa festa!
Então, dê-me ao menos uma faca prontamente afiada,
Cortarei meu coração em fatias para servi-lo aos cachorros da rua,
Minha carne e meus sentimentos aos cachorros,
Ao nobre paladar dos vira-latas
Que saberão sentir melhor que ti.
Escrito por Rosana kali às 12h40
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Entre o Eu, o Espelho, as Máscaras e as Semelhanças


Irmã Irmã Irmã

Eu Eu Eu

Eu
Escrito por Rosana kali às 20h39
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Dentro de extenso estreito
Devagar empurro meus sonhos para o interior de um escuro porão,
Apenas passos compassados em desordem pela ordem do caos
Nos braços não ficam ternura nem sequer um instinto selvagem,
Está tudo deslizando lento pelo abismo
Chega-me a madrugada,
Vem com seus olhos leves como a neve
Vem branca nas sombras de olhos quase lúgubres
Ou então, terei ainda um encontro com o sol,
O sol tão soturno de tardes cheias de tristezas,
A tristeza que escorre mole do rosto
E de quando em quando
Talvez só de vez em quando
Ouço de uma voz silente
Que não somos mais que o oposto do arco-íris
Opacos e de ilusões perdidas
Não adianta
Era sempre noite quando as pálpebras tomavam a difícil decisão de acordar
Abrir o espaço em estreitos
Furar poros de solidão pelo corpo nu
É que aquele dia
Como todos tantos
Eram somente lábios em açucarados lamentos grosseiros
Exalados horrorosamente nos ventos passantes de tortas paisagens
Algumas viagens não voltam
A não ser para dizer:
Tão distante aquele próximo
Percebo o quão nada era o que eu dizia em coloridos versos
O desfalecimento do hálito em palavras que agora já sumiram
De tudo fica o hábito da mágoa
O estranho hábito que floresce aqui em nossas visões
Sempre enxaguadas
Sempre encharcadas
Com amarelos girassóis murchos
Feito os auto-retratos de Van Gogh
Vejo chegar ao cume aquilo que não tem altura
Então chega ao resto o que sobrou do resto
E nós, como peças de um brinquedo,
Estaremos jogados arbitrariamente no chão.
Escrito por Rosana kali às 16h21
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Um poema silencioso para dizer
Está tomando conta de mim,
Agora eu já poderia engolir teus glóbulos vermelhos
Mas isto seria como uma fruta sem sabor
Uma mulher no canto dizia:
Ficarei calada
E eu ouvia repetidamente a mesma frase:
Ficarei calada
Às vezes era sempre tarde,
Tudo era quase passado,
Havia pessoas,
E havia a solidão que come a gente
Então, só poderia gritar meu silêncio de lírios,
Meu silêncio de perfume e dor,
Porém a dor tem o cheiro da ânsia,
A garganta fechada,
A garganta estufada,
Como um vazo cheio de flores
Como uma garrafa entupida,
Ou, a garganta engarrafada
Como aqueles dias que não tem fim
E isto todo mundo sabe,
Todo mundo deve saber o que é um dia sem fim
E a gente olha e não vê ninguém,
Então a gente olha de novo e repara,
A gente olha e vê o nosso próprio fantasma de braços abertos
Pronto para nos acolher
E isto tudo no fim de um dia sem fim
Quando as lágrimas escorrem sem fim
E quando acabam
É mais sem fim ainda
E quando acabam
Voltam ainda
Para acariciar o rosto
Para colorir de vermelho o pálido branco dos olhos
Queria fechar as janelas
Mas terei que abri-las e deixar que o vento...
Ah! Como está ventando lá fora
E como passam pessoas que nem conheço
Posso me encolher tanto
E mesmo assim não desaparecer
Percebo que os espíritos voam
E brincam, brincam e voam
E as minhas pequeninas asas
São mesmo gigantes
É que outro dia,
Eu sei,
Outro dia será sempre outro,
Mas há dias que são sempre os mesmos.
Outro dia eu pensava diferente,
Outro dia eu rabiscava nuvens,
Outro dia eu pulava amarelinha em abismos
E era divertido cair tanto no céu como no inferno desenhado com giz
Outro dia eu simplesmente amava
E ficava me enroscando em fios de Ariadne
E, ao mesmo tempo, em fios de algodão.
Hoje,
Hoje sou quase a mesma,
Hoje sou exatamente a mesma,
Mesmo que ninguém queira assim,
Mesmo que ninguém goste,
Sou meus passos e a marca de meus passos na estrada,
E as marcas de meus passos não se apagam,
Estão sempre em mim.
Escrito por Rosana kali às 15h40
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A fresta
A festa
Os convidados
Talvez esperarão para sempre
Nunca chegarei lá
A não ser como um fantasma
Para com a minha ausência fingir uma presença
Para com minha presença disfarçar uma ausência

Esses versos que falo no seu ouvido
São suspiros e gemidos
Meu coração escorrendo na saliva

Se pronunciar mentiras
É para você não se constranger com a verdade
Mas ao menos por alguns segundos
Terei que ser líquido
E inundar o seu corpo do meu raso desejo
Meu pequeno desejo feito gigante
Depois desaparecer
Esquecer o tempo nas nuvens
E devagar me deixar enlouquecer
Como se isso fosse a paz
Escrito por Rosana kali às 20h44
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Buraco Do Inconsciente

Fitei a noite
Deslizei na noite
Compreendi que apenas no escuro
Eu podia enxergar claro
E ver minha figura por trás das figuras
Os seres do inconsciente
Que me arrastam no buraco de mim
Dentro do buraco da noite
Então, mergulhei no abismo
Para salvar meu corpo da minha alma fugidia
Salvar minha alma que pretendia fugir do corpo.

Escrito por Rosana kali às 09h54
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